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terça-feira, 8 de maio de 2018

Socioinstitucional - Sororidade



Palavras eu preciso
preciso com urgência.
(Titãs)
Socioinstitucional

Aqui estamos nós à roda do prefixo “socio”. Discutimos esse assunto no outras vezes. Naquele momento queríamos distinguir o substantivo “sócio” do prefixo socio-. A distinção nos permite entender que sócio-gerente é a combinação de dois substantivos que, ligados pelo hífen, criam uma nova palavra. Forma-se o que conhecemos como substantivo composto, cujo plural envolve os dois vocábulos (sócios-gerentes, sócios-fundadores).

Já socioeconômico é a junção de socio-, prefixo relacionado a social ou sociedade, e econômico, substantivo simples. Juntos formam uma concepção que associa sociedade e economia. Sempre sem acento no prefixo: sociocultural, sociojurídico, sociopolítica, etc. No caso desse prefixo, o hífen não é empregado, exceto quando o segundo termo inicia-se por o ou h, como em socio-histórico. Tudo isso está definido lá na Base XVI do Acordo Ortográfico.

Dito isso, temos socioinstitucional, palavra recente em nosso vocabulário, que, de acordo com o dicionário on-line Priberam, é um adjetivo relativo a instituições que trabalham para a melhora do bem-estar social. Ainda não consta em alguns de nossos dicionários nem é possível encontrá-la no Volp (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), mas está aí e responde às necessidades dos usuários da língua portuguesa.

Assim palavras nascem. Outras já nasceram, foram esquecidas e depois ressurgem em contextos bastante modernos.


Sororidade

Eis uma palavra de passado longo. Quem estudou em colégio de freiras conhece essa palavra. Soror (ou sóror) é uma forma de tratamento usual para freiras, no lugar de “irmã”. Já foi muito usada, mas, na contemporaneidade, andou sumida. Agora surge uma sua derivada – sororidade –, em um contexto muito moderno. A origem antiga agora remodela-se para se referir à união entre mulheres com o mesmo fim, geralmente de caráter feminista. Por extensão também atinge o mercado profissional. Diz-se de grupos femininos que funcionam em regime cooperativo de trabalho.

Nos dicionários físicos (E essa era uma explicação desnecessária há algum tempo!) ainda não encontramos o termo, apenas outros derivados, como sororicídio, sororato. No Priberam on-line já podemos encontrar o verbete.

Interessante observar como a língua de um povo é viva, pulsante, avança com os falantes. Temos um baú cheio de palavras, vez por outra uma ressurge para novas tarefas, enquanto outras são ali guardadas. Mas todas nos pertencem, mesmo as que nem imaginamos ainda.


Até a próxima!

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Moto: substantivo ou elemento de composição?


Experimente fazer uma pesquisa rápida da palavra “moto-entregador” em acórdãos. Acrescente à investigação “motoentregador”. Acredite, você encontrá os dois registros, igualmente utilizados.

Aqui não vai nenhuma crítica aos dedicados escribas. A dúvida quanto ao uso do vocábulo “moto” é mais que natural. Esperada até.

Para resolver o problema, comecemos por distinguir “moto 1”, substantivo masculino, e “moto 2”, elemento de composição.

Moto 1

Trata-se de um substantivo que significa “movimento, giro”. Nossa ortografia prescreve o emprego do hífen nos compostos (aqueles que em conjunto formam uma nova palavra) por justaposição sem termo de ligação, se o 1º elemento, por extenso ou reduzido, for um substantivo, adjetivo, numeral ou verbo. Assim, temos:

ano-luz mato-grossense primeiro-ministro guarda-chuva moto-contínuo

Nesse cenário, “moto”, que é um substantivo, une-se, por exemplo, a “contínuo” para formar
uma terceira palavra: “moto-contínuo”.

Moto 2

Aqui “moto” é um elemento de composição (prefixo), com sentido de “motor”. O funcionamento desse prefixo obedece aos mesmos parâmetros de retro-, supra-, contra-, ultra-, entre outros: não se utiliza hífen se o segundo elemento começa por vogal diferente, “r” ou “s”, que devem ser duplicados, ou por outras consoantes. Vejamos:

retroalimentação motoentregador supraocular contrarrazões ultrassonografia

Observe que em “motoboy”, “mototáxi” e “motoentregador”, “moto” é a redução de “motocicleta”. Já em “motopropulsor”, “motosserra”, “motoniveladora”, temos “moto” como prefixo, que remete a “motor”.

Além desses papéis, “moto” também é variante de “mote”, termo de origem francesa, cuja semântica corrente aponta para “tema, assunto”. Também temos “moto” que integra a expressão “moto próprio”, que significa de forma espontânea.


Até a próxima!

Fontes básicas:
BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. 37 ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2005.
_______________A nova ortografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
FERREIRA, Aurélio B. H. Novo dicionário Aurélio de língua portuguesa. 4 ed. Curitiba: Positivo, 2009
HOUAISS, Antônio. Novo dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Sócio-cultural ou sociocultural?

O hífen, após a assinatura do Acordo Ortográfico, parece ter se transformado em espinho na carne. Aqui e ali, nós, os redatores, ficamos sem saber o que é certo ou errado. Às vezes, até palavras velhas conhecidas passam a gerar dúvidas.

Um exemplo disso é a palavra sociocultural, que sempre foi escrita assim, mesmo antes do Acordo.

Atualmente ela tem circulado por aí com hífen (sócio-cultural), sem hífen (sóciocultural), com um esdrúxulo acento. Tudo isso pode ser resultado da sensação de que tudo que aprendemos foi parar na imensa lixeira da história. Mas não é bem assim.

Sócio e socio


Para início de conversa, precisamos lembrar da existência de duas palavras: “sócio”, adjetivo ou substantivo, que tem sentido de membro de uma sociedade ou associação, pessoa que participa de um negócio; e “socio”, sem acento, elemento de composição, isto é, prefixo, que exprime a noção de social ou sociedade.

O substantivo “sócio” pode também se ligar a outra palavra, como é o caso de “sócio-gerente”. Mas, nesse caso, não se trata de formação por prefixação. É uma palavra composta, formada por duas palavras independentes. Algo semelhante a diretor-geral, coordenador-geral, administrativo-financeiro, etc.

Já em sociocultural, temos “socio” (prefixo), termo dependente, e “cultural” (adjetivo), cuja junção se dá de maneira semelhante a contraindicação, hidroelétrico, autoestrada, etc.

Como elemento de composição, “socio” se liga a quase toda palavra sem necessidade do hífen. Assim, temos:

socioambiental/socioeducativo/sociopolítico

Mas, se o prefixo “socio”, for sucedido por palavras iniciadas por “h” ou “o”, deve ligar-se ao seu par por hífen.

Socio-histórico/socio-habitacional/socio-humanitário/socio-organizacional

Acentuação

Quanto à acentuação, devemos estar atentos ao fato de que, em português, somente acentuamos graficamente a última, penúltima ou antepenúltima sílaba. Não é possível acentuar graficamente nada que venha antes da antepenúltima sílaba. Por essa razão, “socio” não recebe acento, porque, ao se ligar a outra palavra, não ocupa os espaços possíveis de acentuação gráfica.


Até a próxima!


Fontes básicas:

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. VOLP – Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. http://www.academia.org.br/nossa-lingua/busca-no-vocabulario (acesso em 21/10/2017)
BECHARA, Evanildo. A nova ortografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.